| Aplicando o Re-Steal |
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Christian Kruel
Como todos sabemos, um objeto pode ser observado por vários ângulos. Quem olha um edifício pela frente não vê a mesma coisa que a pessoa que o observa por trás. O objeto dessa nossa coluna será o re-steal, e vamos observá-lo sob um ângulo um pouco diferente do habitual. Numa definição bem simples, o re-steal pode ser descrito como o famoso “ladrão que rouba ladrão”, ou seja, você percebe que o oponente está fazendo um movimento para levar o pote e tenta “roubar o roubo” dele com um aumento.
O exemplo clássico de re-steal é o 3-bet light: a mão chega em fold até o botão, que aumenta 3x bb; o small folda e o big blind, com uma mão fraca, força o fold do botão com um re-raise. Isso acontece porque a gama de mãos com que o botão aumentaria para roubar os blinds é muito grande e, sabendo disso, o big blind explora a parte mais fraca dessa gama de mãos com um aumento que, na grande maioria dos casos, faz o oponente desistir da mão.
Porém, existem outras situações em que o re-steal pode ser aplicado, que fogem ao esquema dessa situação-padrão. Observem a seguinte mão de um MTT 6-max com um re-buy e um add-on disputado no Full Tilt. Não tenho a leitura dos jogadores, então considero a situação como padrão em termos de reads. O torneio é 6- max, o que faz com que a gama de mãos iniciais dos oponentes seja maior, independentemente da posição na mesa. Com os blinds 100/200, o UTG abre raise para 555, um pouco menos que três vezes o big blind. Numa mesa 6-max, assumi que ele possa fazer isso com 20% das mãos iniciais como 22, A9s, KTs, QTs, J9s, T9s, 98s, ATo, KTo, QTo ou JTo.
Estou no botão com 88. Usando um programa chamado Poker Stove, descobri que este par tem uma equidade de 52,6% contra essa gama de mãos. Porém, aumentar aqui não é uma boa ideia. Por quê? Porque um aumeto exploraria apenas a parte mais forte dessa gama de 20%, fazendo a parte mais fraca desistir da mão. A minha mão é vulnerável, mas a melhor maneira de jogá-la no momento é com um flat call em posição. O small blind também entra na onda e paga, e, quando a mão chega até o big, ocorre um aumento para 1.950. Aqui é uma situação interessante para analisar.
Por eu ser um profissional do Full Tilt e ter um perfil agressivo, aliado ao fato de a mesa ser 6-max, o big blind poderia assumir uma gama de mãos ainda maior para mim. Com o pote contendo uma quantidade já razoável de fichas, essa poderia ser uma excelente situação para o jogador defender seus blindscom um steal que chamamos de squeeze, em que ele tentará levar o pote explorando a parte mais fraca da minha gama de mãos e do jogador no UTG. Geralmente o squeeze é feito com um all in, mas nesse exemplo o jogador em questão fez um raise propositalmente mensurado de forma a não comprometê-lo com o pote, talvez na intenção de demonstrar força. Com o fold do jogador no UTG, fico com a palavra, imaginando que o small entre nós estava apenas entrando de carona. Pela “textura” e valor do raise consegui perceber a situação de resteal. Ele não precisaria necessariamente blefar, mas, nesse exato momento, mesmo estando em posição, a melhor forma de jogar meu 88 com o pote já grande era explorando a parte mais fraca da gama de mãos do meu oponente com um 4-bet, que, nesse caso, pode até ser um 4-bet light. Até porque o flat call já me deixaria comprometido com o pote e deixaria minhas chances de takedown praticamente nulas num pós-flop. Além disso, tem o fato de que o oponente, ao ser o primeiro a falar depois do flop, teria a oportunidade de ir all inem um flop que, provavelmente, seria perigoso para meu par de oito, caso não trincasse. Optei pelo re-steal, dando all in, e acabei levando um bom pote. A dica final é prestar atenção para não deixar passar em branco oportunidades de levar bons potes com bons movimentos.
Normalmente, nessa situação, a tendência seria o fold automático, mas outros fatores que exigem uma certa sensibilidade do jogo, que muitas vezes não se expressam em palavras, me fazem acreditar que, naquela 6-max, o all in é uma jogada de expectativa positiva. Logicamente, são jogadas extremamente agressivas e que, quando dão errado, são muito frustrantes, mas, sinceramente, ter apetite e percepção nessas situações e jogadas é que diferenciam um grande jogador dos demais.
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